Wegovy, Ozempic e Mounjaro geraram enorme entusiasmo — e com razão. Proporcionam uma perda de peso substancial, e a pesquisa mostra efeitos impressionantes em tudo, desde o controlo da glicemia até à saúde cardiovascular. Mas há um efeito secundário que muitas vezes passa despercebido em meio a tanto entusiasmo: o que acontece aos seus ossos?
A resposta curta é que os medicamentos GLP-1 podem reduzir a densidade óssea e, com o tempo, isso pode aumentar o risco de osteoporose e fraturas. Não é motivo para entrar em pânico, mas é algo que vale a pena saber e planear. Neste artigo, apresentamos o que a pesquisa mostra, quem está em maior risco e o que pode fazer para proteger o seu esqueleto.
O que mostra a pesquisa?
Nos últimos anos, surgiram evidências sólidas de que os medicamentos GLP-1 podem ter um impacto negativo na densidade óssea. Um ensaio clínico randomizado de 2024 (Hansen et al.) acompanhou participantes durante 52 semanas e concluiu que o semaglutide reduziu a densidade mineral óssea (DMO) do quadril em 2,6% e a DMO da coluna lombar em 2,1% em comparação com o placebo. Pode não parecer muito, mas para pessoas que já têm baixa densidade óssea, mesmo uma pequena redução pode ter consequências reais.
Um estudo separado de 2024 publicado no JAMA (195 adultos, 52 semanas) encontrou um resultado importante e encorajador: os participantes que combinaram o tratamento com GLP-1 com exercício físico regular mantiveram a densidade óssea — enquanto os que tomaram o medicamento sem um programa de exercício a viram diminuir. Isto mostra que o exercício não é apenas um complemento agradável, mas um fator protetor genuíno.
Um estudo observacional maior com cerca de 150.000 adultos verificou que aproximadamente 4% dos utilizadores de GLP-1 desenvolveram osteoporose durante o período de estudo, em comparação com cerca de 3% no grupo de comparação — um aumento do risco relativo de aproximadamente um terço. Em termos absolutos não é alarmante, mas é uma diferença real que vale a pena conhecer.
A bula do Wegovy inclui também um aviso notável: fraturas do quadril foram relatadas em 1% das mulheres no ensaio, em comparação com 0,2% no placebo — uma diferença de frequência de cinco vezes, embora os números absolutos sejam pequenos.
Por que o medicamento GLP-1 afeta os ossos?
Existem dois mecanismos principais em jogo:
- Redução da carga mecânica (Lei de Wolff): Os ossos adaptam-se às forças que recebem. Quando se pesa mais, os ossos suportam mais carga — e tornam-se mais densos e resistentes. Quando se perde peso rapidamente, esse estímulo mecânico diminui, e o organismo reduz gradualmente a massa óssea porque "já não precisa dela". Este é o mesmo mecanismo que faz os astronautas perderem densidade óssea após meses em ausência de gravidade.
- Redução da ingestão de nutrientes: Os medicamentos GLP-1 reduzem drasticamente o apetite — esse é precisamente o seu objetivo. Mas a consequência não intencional é que muitos utilizadores ingerem cálcio, vitamina D e proteína em quantidades insuficientes, todos essenciais para a saúde óssea.
Há também boas notícias vindas da pesquisa: os recetores GLP-1 encontram-se diretamente nos osteoblastos (as células que constroem osso novo), e alguns estudos sugerem que os agonistas do recetor GLP-1 podem ter um efeito positivo direto na formação óssea. O quadro não é, portanto, inteiramente negativo, e a investigação nesta área continua em curso.
Quem está em maior risco?
Nem toda a gente tem o mesmo motivo de preocupação. Os grupos com maior razão para estar atentos são:
- Mulheres na pós-menopausa: O estrogénio protege os ossos e, após a menopausa, essa proteção desaparece. As mulheres com mais de 50 anos são, por isso, particularmente vulneráveis a perdas ósseas adicionais.
- Adultos com mais de 65 anos: A densidade óssea diminui naturalmente com a idade, e uma redução associada ao GLP-1 pode fazer com que alguém passe de "normal" para o intervalo de osteoporose.
- Pessoas com densidade óssea já baixa: Se já se encontra na zona de risco para osteoporose, fale com o seu médico sobre a forma como o tratamento com GLP-1 pode interagir com a sua saúde óssea.
- Pessoas com atividade física limitada: A falta de exercício elimina a defesa mais importante contra a perda óssea durante a perda de peso.
Como proteger os seus ossos
A boa notícia é que a perda óssea durante o tratamento com GLP-1 está longe de ser inevitável. Eis as medidas protetoras mais eficazes:
- Exercício de resistência e com carga: Este é o fator mais importante. O treino de força — com pesos, máquinas ou o próprio peso corporal — estimula os ossos a manter e aumentar a densidade. A evidência é clara: GLP-1 com exercício preserva os ossos. Procure fazer pelo menos 2 a 3 sessões por semana com exercícios que solicitem os quadris, a coluna e as pernas.
- Cálcio adequado: A maioria dos adultos deve ingerir 1.000–1.200 mg de cálcio por dia através da alimentação (produtos lácteos, vegetais de folha verde, alimentos enriquecidos) — ou através de suplementos se a dieta não for suficiente.
- Vitamina D: A vitamina D é essencial para que o organismo absorva o cálcio. A deficiência é comum, especialmente em latitudes mais a norte durante o inverno. Fale com o seu médico sobre um suplemento adequado — geralmente 800–2.000 UI por dia para adultos.
- Proteína suficiente: A proteína não é apenas importante para os músculos — também desempenha um papel na estrutura óssea. Priorize alimentos ricos em proteína mesmo quando o apetite é reduzido.
- Evitar fumar e consumo excessivo de álcool: Ambos enfraquecem os ossos e aumentam o risco de fratura.
Quando falar com o seu médico
É sempre boa ideia mencionar a saúde óssea ao seu médico quando inicia o tratamento com GLP-1 — mas é especialmente importante se:
- For uma mulher na pós-menopausa ou tiver mais de 65 anos
- Tiver histórico familiar de osteoporose ou fraturas
- Já tiver sido diagnosticado com baixa densidade óssea (osteopenia ou osteoporose)
- Tomar medicamentos que podem afetar os ossos (como corticosteroides)
O seu médico pode considerar solicitar uma densitometria óssea (DEXA) no início do tratamento e novamente após um ano para acompanhar as alterações. Em alguns casos, a medicação para proteção óssea pode ser adequada em paralelo com o tratamento com GLP-1.
Manter a perspetiva: os benefícios continuam a pesar mais
É importante ter sempre a visão global em mente. Os medicamentos GLP-1 têm benefícios bem documentados para a obesidade, a diabetes tipo 2, as doenças cardiovasculares e uma vasta gama de condições relacionadas — e os riscos absolutos de dano ósseo são relativamente baixos para a maioria dos utilizadores. A saúde óssea é uma área a monitorizar e proteger ativamente, não um motivo para evitar o tratamento por completo.
Com a abordagem certa — exercício regular, boa nutrição e diálogo contínuo com o seu médico — a maioria das pessoas pode continuar o tratamento com confiança, mantendo o seu esqueleto em boas condições.
Fontes
- PMC: Efeitos dos agonistas GLP-1 na saúde óssea — revisão sistemática
- Frontiers in Aging: Ensaio piloto de DMO — GLP-1 e densidade mineral óssea
- NBC News: GLP-1s podem aumentar o risco de osteoporose, segundo nova pesquisa
- Drugs.com: Os medicamentos GLP-1 como Ozempic e Wegovy afetam a densidade óssea?