Poucos efeitos colaterais dos medicamentos GLP-1 geraram tanta atenção na mídia quanto as gravidezes inesperadas — os chamados "bebês do Ozempic". Por trás das manchetes há uma história mais matizada sobre como esses medicamentos interagem com a saúde reprodutiva: às vezes melhorando-a, às vezes exigindo um planejamento cuidadoso em torno dela.

Seja você alguém que já usa Wegovy, Ozempic ou Mounjaro e quer entender o que isso significa para sua fertilidade, ou alguém que planeja uma gravidez futura e quer saber como organizar o timing, aqui está uma visão completa e honesta do assunto.

O GLP-1 pode melhorar a fertilidade?

Sim — especialmente para mulheres cujos desafios de fertilidade estão ligados ao excesso de peso ou à SOP (síndrome dos ovários policísticos). A conexão funciona principalmente por meio da perda de peso: o tecido adiposo produz compostos semelhantes ao estrogênio e perturba a sinalização da insulina, o que pode suprimir a ovulação. Quando há uma perda de peso significativa, esse ambiente hormonal muitas vezes se normaliza e a ovulação pode ser retomada — às vezes pela primeira vez em anos.

Além da perda de peso, receptores de GLP-1 também estão presentes diretamente nos tecidos reprodutivos, incluindo os ovários, o endométrio (revestimento do útero) e os testículos. Isso levanta a possibilidade de que a semaglutida e a tirzepatida possam ter efeitos diretos adicionais sobre a biologia reprodutiva, embora as pesquisas nessa área ainda estejam evoluindo.

O que é bem estabelecido é que mulheres com obesidade e ciclos irregulares que iniciam o tratamento com GLP-1 frequentemente experimentam a regularidade menstrual restaurada em poucos meses — o que pode ser uma surpresa para quem acreditava que a gravidez era improvável.

O que são os "bebês do Ozempic"?

Os "bebês do Ozempic" é o termo popular para as gravidezes inesperadas relatadas por mulheres que tomavam medicamentos GLP-1. Mulheres que acreditavam ser inférteis — ou que simplesmente não estavam focadas em contracepção — descobriram que estavam grávidas após começar a usar Wegovy ou Ozempic.

Existem pelo menos dois mecanismos que ajudam a explicar isso:

Se você usa anticoncepcionais orais e está iniciando o tratamento com GLP-1, vale conversar com seu médico sobre um método contraceptivo de apoio — pelo menos nos primeiros meses.

GLP-1 e SOP — uma conexão especialmente importante

A SOP é o distúrbio endócrino mais comum em mulheres em idade reprodutiva e uma das principais causas de dificuldade para engravidar. A resistência à insulina — presente na maioria das mulheres com SOP — é um dos principais fatores do desequilíbrio hormonal que leva à ovulação irregular ou ausente.

Os agonistas do receptor de GLP-1, especialmente a semaglutida, mostraram resultados promissores em estudos clínicos com mulheres com SOP. Um estudo publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism descobriu que a semaglutida reduziu significativamente o IMC, os níveis de testosterona e a resistência à insulina em mulheres com SOP, além de melhorar a regularidade menstrual. Algumas participantes tiveram ciclos menstruais regulares restaurados pela primeira vez em anos.

Isso não significa que os medicamentos GLP-1 sejam um tratamento específico para a fertilidade — mas as melhorias metabólicas que eles promovem podem criar um ambiente hormonal em que a gravidez se torna possível. Para mulheres com SOP que tentam engravidar, o tratamento com GLP-1 pode ser uma peça de um plano de cuidado mais amplo, idealmente coordenado entre um endocrinologista e um ginecologista ou especialista em fertilidade.

E a fertilidade masculina?

Existem menos pesquisas sobre GLP-1 e saúde reprodutiva masculina, mas há razões para prestar atenção. Receptores de GLP-1 foram identificados em tecido testicular em estudos com animais, sugerindo um potencial papel direto na produção ou função dos espermatozoides. Os dados clínicos humanos nessa área ainda são limitados.

O que é bem estabelecido é que a obesidade em homens está associada a níveis mais baixos de testosterona, qualidade reduzida dos espermatozoides e mobilidade espermática prejudicada. A perda de peso — por meio de medicamentos GLP-1 ou outros meios — demonstrou em estudos melhorar esses parâmetros. Uma grande meta-análise descobriu que a redução de peso em homens com obesidade levou a melhorias significativas nos níveis de testosterona e na qualidade do sêmen.

Se você é um homem usando medicamento GLP-1 e a fertilidade é uma consideração importante, vale discutir sua situação individual com seu médico, pois os dados ainda estão evoluindo.

Você deve parar o GLP-1 antes de tentar engravidar?

Sim — esta é uma recomendação clara e consistente tanto da Agência Europeia de Medicamentos (EMA) quanto da Agência norte-americana de Alimentos e Medicamentos (FDA). A semaglutida (Ozempic/Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro) são contraindicadas durante a gravidez. Estudos em animais demonstraram danos fetais em doses clinicamente relevantes, incluindo redução do crescimento fetal e malformações esqueléticas em exposições elevadas.

Embora não existam grandes estudos humanos que confirmem esses riscos, o princípio da precaução se aplica com força aqui. As orientações atuais são:

Orientações práticas por situação

Veja um resumo rápido dependendo do seu momento:

Aviso médico

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui aconselhamento médico. Sempre consulte seu médico ou especialista antes de fazer qualquer alteração no seu tratamento. Os medicamentos GLP-1 devem ser usados somente sob supervisão médica. As orientações sobre fertilidade e gravidez são especialmente individuais — trabalhe com sua equipe de saúde para tomar a decisão certa para a sua situação específica.

Fontes