Os medicamentos GLP-1, como Wegovy, Ozempic e Mounjaro, estão transformando o tratamento da obesidade e do diabetes. Milhões de pessoas ao redor do mundo se beneficiam de seus efeitos comprovados sobre a saúde cardiovascular, o controle da glicemia e a perda de peso. Porém, pesquisas publicadas em 2024 levantaram novas perguntas sobre um aspecto específico: a saúde dos olhos. Esses medicamentos podem afetar a visão? E, se sim, o que isso significa para quem os utiliza?

A resposta é complexa. Existe um risco potencial relacionado ao nervo óptico, um fenômeno de piora transitória da retina em algumas pessoas com diabetes e, ao mesmo tempo, prováveis benefícios de longo prazo para a saúde ocular decorrentes de um melhor controle glicêmico. A seguir, explicamos o que se sabe sobre cada um desses pontos.

O que é NAION e o que as pesquisas mostram?

NAION (neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica) é uma condição em que a redução do fluxo sanguíneo para o nervo óptico provoca perda súbita e indolor da visão, geralmente em um olho. Difere do glaucoma, da degeneração macular e dos problemas típicos da retina — é relativamente rara e frequentemente irreversível.

Em julho de 2024, um estudo publicado no JAMA Ophthalmology por Hathaway e colaboradores demonstrou que pessoas em uso de semaglutida tinham um risco aproximadamente 4 vezes maior de desenvolver NAION em comparação com aquelas que não usavam medicamentos GLP-1. O resultado foi estatisticamente significativo e abrangeu tanto a população com sobrepeso ou obesidade quanto pessoas com diabetes tipo 2.

Em setembro de 2024, a FDA (agência regulatória americana) respondeu adicionando um aviso sobre NAION nos rótulos do Ozempic e do Wegovy — um passo regulatório importante que reconhece o sinal de risco potencial.

Mas o contexto é fundamental. O risco absoluto de NAION na população geral é estimado em 2 a 10 casos por 100.000 pessoas por ano. Mesmo que os medicamentos GLP-1 multipliquem esse risco por quatro, o risco absoluto para o paciente individual permanece baixo. Para comparação: o risco de eventos cardiovasculares graves — dos quais esses medicamentos protegem — é muito maior para a maioria das pessoas que os utilizam. O estudo de Hathaway é observacional, não randomizado, o que dificulta estabelecer causalidade com certeza. Mais pesquisas são necessárias para confirmar esses achados.

Quem corre mais risco?

Nem todas as pessoas que usam medicamentos GLP-1 estão igualmente expostas. Alguns fatores podem aumentar a vulnerabilidade à NAION:

Se você se enquadra em vários desses fatores, informe o seu médico — o exame oftalmológico de base se torna ainda mais importante.

E a retinopatia diabética?

Pessoas com diabetes e retinopatia preexistente podem enfrentar outro problema ocular bem conhecido: uma piora transitória do estado da retina após a queda rápida da glicemia. Esse fenômeno — às vezes chamado de "piora precoce da retinopatia" — foi documentado no estudo SUSTAIN-6 com semaglutida e é conhecido em outras estratégias de controle intensivo da glicemia, como a insulinoterapia intensiva.

O mecanismo não é completamente compreendido, mas provavelmente está relacionado a alterações no fluxo sanguíneo dos vasos da retina quando o nível de glicose cai rapidamente de valores muito elevados. É um fenômeno transitório, porém em pessoas com retinopatia já avançada e HbA1c muito alta no início (acima de 10%) pode exigir acompanhamento oftalmológico mais próximo nas primeiras semanas de tratamento.

É importante distinguir esse fenômeno do efeito de longo prazo dos medicamentos GLP-1 sobre a retina: em uma perspectiva de anos, o melhor controle glicêmico reduz o risco de progressão da retinopatia diabética.

Existem também benefícios para a saúde ocular?

Sim — e eles são relevantes, especialmente no longo prazo.

A retinopatia diabética é uma das principais causas de perda de visão no mundo, e seu principal fator desencadeante é a glicemia cronicamente elevada. Como os medicamentos GLP-1 reduzem efetivamente a HbA1c e mantêm a glicose sob controle, eles protegem a retina dos danos vasculares que se acumulam ao longo dos anos. Para pessoas com diabetes, esse é um dos benefícios mais significativos para a visão a longo prazo.

Além disso, os medicamentos GLP-1 têm reconhecido efeito anti-inflamatório, e a inflamação crônica desempenha papel em diversas doenças oculares — incluindo a degeneração macular e a retinopatia. Receptores GLP-1 foram identificados diretamente em células da retina, sugerindo que esses medicamentos podem exercer um efeito protetor local independente da ação sistêmica. As pesquisas sobre esse mecanismo estão em andamento.

Por fim, a própria perda de peso reduz a pressão intraocular em muitas pessoas, o que pode ser benéfico para a saúde do nervo óptico.

O que fazer antes e durante o tratamento?

Conhecer os riscos e os benefícios potenciais permite uma abordagem consciente do cuidado ocular durante o uso de medicamentos GLP-1:

Devo interromper o medicamento por causa disso?

Para a grande maioria das pessoas, a resposta é não. Os benefícios dos medicamentos GLP-1 — redução do risco de infarto e AVC, melhora do controle do diabetes, perda de peso e diminuição do risco de doenças renais — são bem comprovados e alcançam uma população ampla. O risco de NAION, embora real e merecedor de atenção, permanece estatisticamente raro.

A decisão de continuar, ajustar a dose ou interromper o medicamento deve sempre ser tomada em conjunto com o médico, que conhece o perfil de saúde completo do paciente. Nunca interrompa um medicamento por conta própria com base em notícias gerais de saúde — o contexto individual é decisivo.

Se você desenvolver NAION ou outro distúrbio visual grave durante o tratamento, o médico avaliará imediatamente se a continuidade da terapia é apropriada.

Aviso médico

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui aconselhamento médico. As pesquisas citadas refletem o estado do conhecimento em meados de 2026 e podem evoluir com novas evidências. Sempre consulte seu médico ou especialista antes de fazer qualquer alteração no seu tratamento. Os medicamentos GLP-1 devem ser usados apenas sob supervisão médica.

Fontes